
A primeira escola LGBT do Brasil é exatamente do jeito que você imagina. Fica em Campinas, a sede e o uniforme são cor-de-rosa e as paredes enfeitadas por pôsteres homoeróticos. A ‘bedel’ é a drag Lohren Beauty, o mascotinho uma Pinscher sapatão (estimação da própria Lohren) e o lanche favorito aos intervalos é sanduíche de baguete. Lá os alunos se tratam por alunas, conversam sobre rolas e a tábua “Regras Para Se Conviver Bem”, pregada logo à entrada, tem os mandamentos “NÃO gongar o colega”, “sem fofoca”, “respeitar o limite dos outros”, “NÃO interromper um assunto”, “NÃO mexer com as pessoas na rua”, “NÃO desrespeitar o espaço e a opinião dos outros”, “NÃO fumar dentro da sede”, “NÃO mexer em bolsas dos outros”, “ter educação com os outros” e “respeito mútuo”. Eles são gays, travestis e transgêneros, afinal, e não ‘bibas finas’ de vernissage, e lá tá todo mundo se divertindo assim.
A única coisa diferente é que não se trata do tipo de escola que muita gente espera. Ninguém sai de lá com diploma de ensino médio ou coisa do tipo. A ideia foi criar um espaço para atividades extra-curriculares com aulas aos finais de semana. “O objetivo é conscientizar as pessoas do que existe no universo gay e, a partir daí, começar a criar cultura com esse repertório”, me disse o Deco, diretor do lugar. Inaugurada em março de 2010, a iniciativa foi contemplada por um programa de parceria entre o governo de São Paulo e o Ministério da Cultura, o que significa que irá receber um financiamento de R$ 180 mil saídos dos cofres públicos a serem divididos pelos três anos estipulados no edital.
O que não é pouca bosta num Brasil que, apesar de em nível estatal parecer estar colorindo cada vez mais sua amizade com homossexuais – a maior parada LGBT do mundo é nossa e recentemente voltou-se a discutir a aprovação de uma lei anti-homofobia que tramita no Congresso desde 2006 –, ainda dá RG a druguis à caça de gays por ruas e livrarias. “O reconhecimento do nosso projeto pelo governo é meio que um carimbo, uma chancela. Muitos pais só deixaram os filhos se matricularem por causa disso. Se tivesse acontecido pela iniciativa privada não ia ter tido o mesmo impacto. Mas isso também torna a gente alvo de mais críticas.”

E rolou bem isso. Primeiro Campinas teve medo, ficou petrificada. Pensou não poder viver com coisa assim tão incrustada. Aí deu muita ideia errada — “uma parte da própria comunidade gay ficou contra a gente no começo porque via na ideia um ato de segregação. Só que nossa ideia é justamente a de incluir, tanto que estamos abertos para alunos heterossexuais também” – e algumas garrafadas – do início das aulas até o dia em que fui visitá-los foram três ataques à propriedade. Mas a escola gay viveu, e a cidade viu que não doeu. “Hoje já tem até vizinho que vem aqui conhecer a gente, assistir umas aulas”, contou o Deco.
Fiquei sabendo de tudo isso quando fiz uma visita no último sábado de novembro. Até aquele dia já tinham passado por lá “cerca de 35 alunos” (foram abertas, “mais ou menos”, dez vagas para cada um dos três cursos — dança, webtv e zine — fora o de defesa pessoal, que durou três meses. Para 2011, o pessoal planeja começar um curso de revistas e, 2012, aulas de drag queen). Desses, só 18 continuam a dar as caras. HTs, só meninas. Duas. “Ainda não tivemos homens interessados, mesmo porque eles são mais preconceituosos.” Naquele dia, ensaiavam para o espetáculo que estrearia dali pouco tempo para, depois, “rodar o Estado”(dá pra assistir aqui). Daí que o GPS não foi muito necessário. “Somewhere Over The Rainbow”, uma das canções da trilha sonora do tal “balé gay”, tocava no amplificador. Foi o suficiente pra achar o lugar.
Enfim, foi um fim de semana astral e de muito conhecimento, do tipo “não é o clitóris que é um pênis subdesenvolvido, o pênis que é um grande bucetão” (Lohren Beauty). “Viu como você é machista?”
TEXTO POR BRUNO B. SORAGGI
FOTOS POR CAROL SACHS





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[...] que a gente falou da Lohren Beauty? É essa aí à esquerda da foto. Conhecemos ela durante nossa visita à escola LGBT de Campinas. São dela a casa sede da iniciativa, a Pinscher sapatão e a máxima “não é o clitóris [...]
[...] o primeiro aluno heterossexual, o que não aconteceu no ano passado. Ah, e o Diaz (lembra dele?), partiu daquela para uma (talvez) melhor. Voltou ao Mato Grosso, de onde tinha saído fugido pela [...]